sábado, 22 de abril de 2017

Meu guia por territórios mágicos

p/ David

Eu tinha seis, sete, oito anos. Por vezes, meu pai me chamava para ir com ele buscar lenha, ou o milho maduro, já devidamente quebrado e reunido em grandes montes, no meio da roça. Ou mandioca, bananas, melancia... Íamos de carro de boi. Na ida, o carro ia vazio, e os solavancos do solo irregular nos jogavam de um lado para o outro, na caixa de madeira sobre rodas. Na volta, o carro pesado são sacudia tanto. Mas os bois sofriam mais.

Passávamos por dentro da mata. A mata estava bem ali, próxima. Mas era outro lugar, com outros tempos e outras temperaturas. A mata era um território mágico. Eu me sentia segura levada por ele. Ele conhecia os caminhos, as árvores, os sons, os perigos e as rotas sem risco. Ele era o senhor de suas cartografias.

Já se passaram 39 anos desde que ele se se foi, por outras matas mágicas, sem caminhos de volta.





segunda-feira, 10 de abril de 2017

Lolita e o cirurgião plástico. Ou: A escola psicossocial do Big Brother

Para todas as mulheres não-amélias deste "Brasil Varonil"...
e para J. Bamberg, com quem partilho esta indignação


Encontro muitas pessoas que, com ar de desdém, afirmam nem saber o que se passa no atual reality show da Globo, a décima sétima edição (já vai ganhando a maioridade civil...) do Big Brother Brasil.

De meu lado, tenho visto, para tentar entender um pouco do que se passa fora da tela da TV. É sabido que as mídias promovem mais educação, e de modo mais ágil, que todas as instituições escolares reunidas. Um programa como esses não funciona apenas como espelho que potencializa conflitos e comportamentos da vida social contemporânea. Funciona, também, como espaço potente de aprendizagens, de legitimação para comportamentos sociais.

Então, quando as notícias sobre violência à mulher assustam pelo grau de perversidade, pelas estatísticas crescentes, pelo sentimento de impotência que nos invade, é preciso perguntar por onde se passam esses descaminhos, quais seus mananciais. Sem dúvida, o programa em questão faz parte dessa cartografia... 

Sua edição neste 2017 trouxe ao écran dos aparelhos de televisão e demais aparatos midiáticos, diuturnamente, a relação de um casal formado por uma moça e um homem maduro, durante o jogo, cuja natureza ganhou feições assustadoras, amedrontadoras. A moça ocupa, no imaginário dentro e fora do confinamento, o lugar da ninfeta que mantém um vínculo ambíguo e conflituoso com o homem mais velho. Uma espécie de Lolita. A temática é antiga. As Lolitas ocupam o lugar de fetiche no imaginário sexual ocidental contemporâneo.

Em 1955, Vladimir Nabokov publicou o livro Lolita, que conta a história de um homem maduro, que se casa com uma mulher de mesma idade. Contudo, apaixona-se pela filha dela, uma adolescente. Essa história foi transformada em filme por Stanley Kubrick, em 1962. 

Na atual edição do Big Brother, o homem maduro é um médico, cirurgião plástico, que provavelmente tenha quase o dobro da idade da ninfeta. De saída, em escalas de poder, no imaginário social, pelo fato de ser homem e médico ele se encontra, no ponto de partida, numa posição diferenciada em relação aos demais. Na condição de cirurgião plástico, um componente a mais toma parte da composição: a vaidade. O médico é vaidoso, e opera sobre esse mesmo fetiche. 

A Lolita em questão é muito jovem, passional, explosiva. Ele é dominador, vaidoso, mais velho. Ambos são egoístas, e parecem movidos a tensão e conflito. Berram entre si. Os dedos em riste apontam o outro, tocando a pele do rosto. Corpo a corpo, o médico imobiliza a Lolita que grita para ele sair, sem ser atendida. Ele prende-lhe o pulso. Depois é ela quem volta, retoma a discussão. Provoca a ira... sob os olhares das outras mulheres também confinadas. Para estas, eventualmente, sobram ataques por parte do médico, ou malcriações por parte da Lolita. 

Todos esses detalhes não seriam tão relevantes, se não resultassem numa contínua relação de brigas, ameaças, embates físicos, que configuram assédio moral continuado, violência psicológica sendo veiculada em horário nobre pela TV, sem qualquer providência mais séria em relação à gravidade do quadro. O assédio moral estende-se dos embates entre o casal para as demais participantes, mulheres, que ocupam territórios periféricos à bomba relógio, vulneráveis a seus efeitos. Indefesas aos ataques do sultão em sua primazia... 

Contudo, a insanidade dos jogadores confinados pelo programa, ou o cinismo da emissora de televisão não são as principais fontes da indignação que motiva este texto. Uma e outra conduta são em alguma medida esperadas, lamentavelmente. A indignação vem, principalmente, da aprovação, por parte do público, do comportamento do casal, imbatíveis até à reta final do programa, candidatos favoritos à vitória. A Lolita tem a maioria da preferência do público em todas as enquetes, e o médico permanece em jogo, eliminando todos os adversários que tenham a má sorte de enfrentá-lo nos paredões. 

Parece se estabelecer uma relação de mão dupla: o programa ganha em audiência por veicular uma relação passional que transita impunemente pelo assédio e a violência morais. Ao mesmo tempo, com o programa, a emissora desenvolve uma pedagogia psicossocial segundo a qual tal comportamento não só é aprovado como elevado à condição de fetiche, porquanto premiado no certame em curso. 

Isso tudo acontece quando as discussões feministas de toda ordem ocupam lugar nas universidades, nas escolas, nas ruas, até mesmo nos telejornais da própria emissora de televisão! 

Então eu me pergunto: onde estão os grupos ativistas que não se posicionaram, que não gritaram, que não tomaram, até aqui, nenhuma providência legal sobre o que está ocorrendo? Se recusam ainda a ver o programa, por considerá-lo refratário à sua causa, ofensivo à sua capacidade intelectual? Mas o que ele veicula toma parte dos quantos vetores sociais que redundam na violência contra a mulher! Ignorá-lo é também passar ao largo das fontes da violência e ser, portanto, conivente com elas.

Hard times... bad times...






sábado, 18 de março de 2017

Praia da FAV: uma lição de alegria e diversidade

Foto: (a identificar autoria)


Para Profª Carla 

Talvez eu deva iniciar este texto num ponto mais longínquo na linha do tempo: algum sábado pela manhã, em agosto de 2004, quando eu comecei minha trajetória como professora na Faculdade de Artes Visuais da UFG, oferecendo uma disciplina de Núcleo Livre. Sim, ela foi ofertada no sábado pela manhã. Fazia parte da turma uma estudante inquieta, atenta. Não sei porque ela estava ali, pois não tinha exatamente perfil de quem encontraria motivações pessoais o bastante para cursar uma disciplina aos sábados de manhã. Mas, contrariando as expectativas, estava, era assídua, pontual, e tinha motivação o bastante.

Desde então, o vínculo que nos ligou, no decurso do tempo, configurou-se delicado e fecundo. Mantivemos parcerias em projetos de iniciação científica, de conclusão de curso de graduação. Depois ela seguiu fazer mestrado e doutorado no exterior. Já devidamente titulada, foi aprovada em concurso, ingressando agora como professora na mesma escola onde fez sua formação inicial.

Não há novidades nessa condição: vários professores no quadro docente da nossa faculdade são egressos de nossos cursos de graduação ou pós-graduação stricto sensu. Mas a Profª Carla diferencia-se por guardar, em sua atuação como professora, faíscas da estudante que foi, do sujeito aprendente que sempre será. Estas faíscas encontram reverberação nas faíscas dos e das estudantes dos cursos de graduação, nos quais agora ela atua, ensinando. Desse encontro resultam projetos intensos, percursos ricos, marcados pelo desejo de pertencimento, pela vontade de perguntar, de aprender, de construir. Sobretudo, orientados pelo princípio do respeito inegociável à diversidade, e pelo direito à alegria.

O respeito inegociável à diversidade e o direito à alegria são os dois ingredientes principais do projeto Praia da FAV que, em 2017, ganhou sua segunda edição. Em geral, a chegada dos calouros aos seus cursos de graduação é tratada com uma programação marcadamente acadêmica, muitas vezes administrativa: apresentam-se os professores, as normas do lugar, a estrutura do curso, etc. Em geral, trata-se de uma aula a mais, na qual os estudantes recém-chegados ouvem o que os professores e, eventualmente, estudantes mais antigos têm a dizer. Tratam-se de informações que, quase sempre, são esquecidas logo em seguida...

Pensando nisso, lembrando a própria experiência como estudante, a Profª Carla decidiu modificar essa relação, alterando os protagonismos. Em seu projeto, o momento de apresentação, por parte dos coordenadores de curso de graduação, é preservado, mas ocupa um espaço mais econômico, sendo seguido de um tour pelo espaço físico da faculdade, guiado por estudantes veteranos. Espera-os o filé da celebração ao novo ano letivo que se inicia: uma intensa e diversificada programação na área externa do prédio, envolvendo piquenique coletivo, piscina com baleia de plástico, caixa d’água para brincar, jogo de vôlei, escorregador de sabão, balões de água, desfile de moda, música, alegria.

Pretende-se que os estudantes mais antigos façam a recepção aos calouros, responsabilizando-se pela estrutura física e pela organização das comissões. Sob a batuta animada da mentora da subversão.

Foi assim que, no dia 17 de março de 2017, a área externa da FAV lembrava, sim, uma praia instalada em pleno Planalto Central, a 800m de altitude em relação ao nível do mar. Gente bonita, alegre, celebrando seu ingresso num curso universitário público. Gente aprendendo a celebrar na diversidade, a respeitar as alegrias de todas as formas, sem que para isso sejam necessários discursos fadados ao esquecimento.

Lamenta-se, contudo, que a presença de professores dos cursos de graduação, sobretudo nos momentos iniciais do evento, seja tão escassa. Isso diz muito dos perfis que prevalecem, ainda, nas relações entre professores e estudantes. Isso nos informa, sobretudo, que as questões políticas vão além, muito além das discussões partidárias, penetrando os encaminhamentos mais basilares relativos aos modos de operação quotidiana da vida universitária.

Que tenhamos o direito e o fôlego necessários para viver e realizar muitas mais festas como essa. Por uma universidade menos careta! Vida longa aos projetos da Profª Carla. É um privilégio ter a sua parceria!


Vida longa à liga VVTT!!!! 


Foto: (a identificar autoria)


Foto: (a identificar autoria)


Foto: (a identificar autoria)


Foto: Renato Cirino



As fotos desta postagem foram compartilhadas,
 em rede social, pelos participantes do evento.
 Aos que identificarem autoria, agradeceria a informação,
 para acrescentar os créditos. 





quarta-feira, 15 de março de 2017

Como não foi eu que escrevi?


como é tão fácil para você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram 
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

(Rupi Kaur. Outros jeitos de usar a boca. Milk and honey).



--- § ---


Leio Rupi Kaur,
 e cantarolo os versos de Milton Nascimento:


Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz?
(...)

(Milton Nascimento. Certas Canções)






segunda-feira, 13 de março de 2017

passarinhozinhozinho





Durante o tempo em que esteve no arbusto, só consegui ouvir seu canto e acompanhar, sempre em atraso, o seu movimento estremecendo as folhagens. 
Ei-lo, revelado.




domingo, 12 de março de 2017

Dos que se olham e se veem


Eu a vejo
Ela me vê
Eu empunho a câmera
Ela me observa
Eu ajusto a lente, abertura, velocidade, faço fotos
Ela me olha com firmeza
Sinto-me indagada
Ela agita as asas, e alça voo

Agora observo as fotos
Nelas, ela persiste em me olhar
E eu a ela